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Filho

Cadê você, que veio me visitar no Natal,

cada vez tão mais dentro de mim,

tão mais declarado e descarado!

Já era um natal que me anunciava.

Nós dois estamos nascendo nessa nova relação.

Mas por que você não me disse desde a primeira vez

em que caímos um nos braços do outro,

sem sequer imaginar que já era esse desejo de nascer

que se fazia presente?

Talvez você já estivesse me dizendo, né?

Mas eu não tinha nenhuma capacidade de ouvir.

Agora olho em nossos brilhos nos olhos nessa foto

e vejo que já estava tudo dito aí.

De alguma forma, já éramos mãe e filho.

Não sabíamos que laço tão forte havia nos unido,

mas você veio me visitar no último Natal

e me revelar, fazendo já nascer esse desejo

tão reprimido e adormecido

que nunca tinha se feito consciente antes.

Eu te amo, meu filho!

Obrigada por me gerar,

por me fazer nascer

como mulher, como mãe,

nunca antes experimentado,

nunca dessa forma.

Obrigada por resgatar meu útero,

por deixá-lo em evidência pra que possa se expressar

e trocar o “f” de ferida pelo de fruto.

Quero dar fruto na vida,

como é natural, é instintivo, é arquetípico.

As dores e esforços do momento presente,

sobretudo as renúncias pra crescer,

ganham todo sentido pela sua vida,

só de olhar pra você e acolher o seu natal.

Não tenho ideia de como ele será,

só sei que o seu abraço é a melhor coisa do mundo,

meu filho.

(Escrito em 13/07/2018)

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Já passamos da metade do ano. Você tinha notado?

Entre polêmicas na política, notícias de violência – marginal e, sobretudo, policial –, discussões sobre a intervenção militar geradas por uma amnésia histórica tomada por emoções exacerbadas, petralhas que dizem “eu avisei” para coxinhas, coxinhas que tomaram de tal forma as cores nacionais (só as cores?) que nos deixaram sem traje e sem jeito para torcer para a Seleção no início dos jogos…

Aqui estamos: na metade da Copa do Mundo, com o coração já tomado, com o verde amarelo recuperado (a maioria, pelo menos), com o pensamento e as conversas no próximo jogo – a que horas sairemos do trabalho, onde veremos, será que o Brasil passa da Bélgica??? Enquanto isso…

– os senhores da guerra continuam a não gostar de crianças, como já cantava o saudoso Renato. Mal sabia ele que veríamos meninos e meninas separados de seus pais, presos, sozinhos, com medo, cruelmente tratados. E ai de quem falar contra isso no país que já teve – ainda tem, né? – a pretensão de ditar um “way of life”;

– o agronegócio nada de braçada no Brasil e meterá mais agrotóxicos em todos nós, cuja saúde já é tão debilitada por tanta química. Agro é vida? De quem? Talvez o agro seja pop mesmo, uma vez que “o pop não poupa ninguém”, não é, Humberto? (Gessinger);

– as candidaturas à Presidência continuam indefinidas e aumenta o risco da versão brasileira do “senhor da guerra”;

– ¼ da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza, com menos de 350 reais mensais por pessoa.

Já passamos da metade do ano. Algumas coisas se repetem, outras agravam, pequenos sinais ainda sustentam nossa esperança. Apesar de tudo, seguimos na alegria típica do nosso povo e nos preparamos para gritar muito. E depois a vida segue. Igual? O que poderia nos tirar da anestesia da “normose” e nos fazer dar saltos – ao menos 1 – na vida pessoal e social, aproveitando os 40% de 2018 que ainda nos abre horizontes de possibilidade?

(Escrito em 03/07/2018, entre as oitavas e as quartas de final da Copa do Mundo da Rússia)

Experiências do materno

Eu tinha a boa intenção de falar do feminino e de um de seus aspectos que fazemos memória juntos (comemoramos) neste mês de maio, a maternagem. Desde já peço desculpas, porque um texto não nasce assim, quando a gente quer que ele nasça e sobre o que a gente decide e planeja, ele simplesmente brota em momentos inesperados. Ainda mais sobre um tema tão entranhável, que se vela e desvela uterinamente, escapando de qualquer poder e controle. Graças à Grande Mãe, que nos abraça e aquece em seu redondo!

Só tenho a impressão de, nesta fase, em plenos 40, estar submersa no mar de aprendizagem do Reinado da Deusa, que escapa às melhores elaborações racionais, mas gera vida na vida. O cuidado diário de minha mãe idosa e enferma envolve de tal maneira que torna difícil saber ao certo quem é cuidadora e quem é cuidada. O verbo “ser”, e também O Ser, não dão conta, pois esse encontro com o Rosto escapa e leva além.

Já não tem forma – passou longe do fitness –, nem diálogo – pouquíssimas trocas de palavras escritas, na falta do ouvir e do falar – e sequer muita compreensão – quando a lucidez passa à esfera do mais ou menos. Iniciativa, quase autossuficiência, que já foram marcantes, cederam agora espaço a uma dependência total. Que fascínio então é esse que ela exerce mais do que nunca? Encanto, doçura, fortaleza na fragilidade… Sorriso e brilho nos olhos… tão dentro de si e tão no outro, nos outros… A gente procura palavras e até as torce para tentar dizer de uma experiência que ultrapassa e muito qualquer descrição.

Fico feliz com algumas vitórias alcançadas com muita luta feminista. Quando percebo mudanças nas tradicionalmente machistas propagandas de cerveja – em uma ou outra –, sei que não são gratuitas, mas vêm daquela história de água mole em pedra dura… Faz tempo que não vejo uma divulgação de leite ou iogurte com um corpo feminino ao lado, como que aproximando duas “coisas comestíveis”. Pequeníssimos avanços num terreno no qual ainda temos muuuuito a percorrer. Quando chegam perto duas datas normalmente complicadas no imaginário geral – o Dia Internacional das Mulheres e o Dia das Mães – a gente fica com medo do que vai receber por aí, diretamente ou sobretudo via mensagens prontas espalhadas pelas redes sociais (como as detesto!)

Alguns a gente questiona, outros – a maioria – tenta deixar pra lá, não vale a pena! Você não deve estar entendendo como vim parar aqui e eu menos ainda. No entanto, acredito que o feminino e, dentro dele, a maternagem são da ordem da experiência mais que da reflexão – e menos ainda dos estereótipos, que é o que mais irrita na mídia e nas mensagens prontas!

Que este mês nos ajude, então, a mergulhar no próprio mar e recolher algumas conchinhas e quem sabe uma pérola das manifestações da Grande Mãe, sejam elas quais forem. Afinal, a bondosa e a terrível fazem parte do mesmo pacote. E a Vida, como Mãe, por meio de contrações, realiza nossos partos quando somos encerrados ou nos encerramos no útero.

(Escrito em 04/05/2018, após ter dado banho na minha mãe)

Pra não dizer que não falei das flores… hospitalares

No último texto, expressei o desconcerto sobre a dificuldade de ficar tranquila com um parente internado no hospital, devido a constantes desatenções que geram incerteza quanto à sua recepção dos devidos cuidados de saúde. Para não deixar a questão apenas deste lado, senti necessidade de reconhecer as flores que brotam no matagal.

Há enfermeiros que brilham em sua vocação, deixando o humano ultrapassar o técnico, como deve ser. Apesar do aperto de uma equipe reduzida diante de tanta demanda, da rotina e de situações desagradáveis que ocorrem ao lidar com pessoas em seu estado de maior fragilidade, não agem de forma robotizada. Estabelecem relações sujeito-sujeito com os pacientes que, em suas mãos, podem se sentir clientes, porque são vistos, ouvidos e considerados assim.

Ressalto três em especial da última internação de minha mãe, que continua em seu placar de metade dos dias deste ano em casa e metade no hospital. Não mencionarei nomes para não correr o risco de esquecer alguém, uma vez que a gente também não fica no estado total de atenção para todos os lados, focado que está no ente querido.

Começo pela socorrista, que se destacou na calma com que atendeu, sem deixar de fazer o que era preciso. Essa paz de espírito permitiu com que fosse eficaz, articulando a obtenção da vaga e, com isso, evitando uma das etapas que antecede o prontoatendimento. Lembro-me de uma frase de Roberto Tranjan, com quem já aprendi tanto: “Vamos devagar porque estamos com pressa!” Além disso, na ambulância, ela me deu todas as dicas para a continuidade dos cuidados com minha mãe, enquanto ia sentada de frente e de mãos dadas com a dona Amelia.

Depois, uma enfermeira do andar que, com uma ou duas atenciosas perguntas, descobriu que eu era filha única e não morava na mesma cidade que a minha mãe, apesar de estar provisoriamente por aqui. Fez questão de expressar sua empatia e identificação, “ultrapassando” no bom sentido o distanciamento profissional. E um enfermeiro super brincalhão. Como é gostoso alguém chegar de um jeito leve e, sem deixar de fazer o necessário, rir e fazer rir!

O médico não chegou como um expert que sabe tudo já no primeiro contato – o que não deveria ser, mas muitas vezes ocorre. Pelo contrário, dialogou, pediu o nosso olhar e levou o ponto de vista em consideração, explicou tudo e deixou uma ponte de comunicação. E a receita tão detalhada e na língua dos vivos?! Nunca vi igual.

Agradeço de coração cada colaborador(a) que chegou com delicadeza para limpar, entregar a refeição, organizar os papeis ou mesmo ouvir. Dá-me a esperança de que, sendo ou não a maioria, deixam seu brilho a iluminar o caminho de quem por ele passar.

(Escrito em 23/04/2018, na alta da quinta internação do ano de minha mãe)

O (des)cuidado com a saúde nos hospitais

Tenho acompanhado minha mãe de 85 anos em quatro internações neste ano, que totalizaram 45 dias no hospital e 52 em casa. Tantas experiências que supõem vários relatos… do que é possível relatar (pois algumas alcançam uma profundidade para a qual não há palavras). Neste, gostaria de compartilhar sobre a insegurança que tem nos provocado o atendimento à saúde.

Uma vez no hospital, a minha tendência seria relaxar; afinal, está em boas mãos, de médicos, enfermeiros e técnicos que entendem e saberão conduzir o tratamento da melhor forma possível. Lembro-me de ter relaxado quanto ao meu pai, há 11 anos. Só não sei agora se porque foi diferente ou por inocência.

Com a minha mãe é uma tensão constante, que na verdade começou bem antes, há uns poucos anos, quando, internada por pneumonia provocada por aspiração (engasgos que fazem o alimento ir para os pulmões), indicaram-lhe fazer gastrostomia, colocando uma sonda para alimentar-se diretamente no estômago. Achei aquilo tão invasivo que perguntei: “Mas não tem outro jeito?” Nem foi necessário insistir no questionamento, veio em seguida a resposta: “Sim, se vocês seguirem o que ensinarmos à risca!” Fiquei chocada: como assim indicarem algo tão drástico havendo outra solução?

Temos sido tão obedientes que prolongamos por 3 ou 4 anos seu prazer de comer. Aprendi a ficar atenta e questionar. Agora, no entanto, essas atitudes têm sido necessárias para os mínimos detalhes – qual medicamento estão dando, o horário, o tipo de banho, até corrente de ar. Quando ela ainda estava com dieta pastosa, chegou no CTI mais de uma vez um mingau, ralo demais para o que devia ser, e água pura, que lhe é fatal (desde o que contei precisa ser espessada até a consistência de mousse). O remédio para dormir é prescrito no horário padrão (20h), mesmo com a gente avisando que ela toma às 17h diariamente, do contrário não faz efeito na hora certa. Demora um pouco convencer alguns médicos disso, sobretudo quando são as cuidadoras que conversam com eles (preconceito?)

Não adianta muito, no entanto, a mudança da prescrição. Supõe várias idas ao posto de enfermagem implorando pelo remédio, que até hoje não atrasou menos que 1 hora, com insistência. Levantamos as mãos para o céu que este ainda é dado, porque outro remédio prescrito, necessário para evitar a aspiração da saliva (que causou a penúltima internação), deixou de ser dado no horário da manhã em alguns dias.

A fralda, desta vez, até que tem sido trocada regularmente, pois nem sempre foi. Já precisei implorar por esta troca, enfrentando resistência. A microaspiração acaba e somos nós que mexemos no aparelho para desligá-lo e retornar com o oxigênio nasal, pois demora mais de 1 hora para alguém voltar no quarto para olhar. No banho de manhã, o lençol é puxado de uma vez e a janela escancarada – nós é que precisamos dizer ao profissional de saúde da corrente de ar sobre o corpo quente de uma idosa.

O que dizer da cirurgia que, por um mal-entendido interno, por um tris não é adiada, prolongando o sofrimento?! O último episódio foi da morfina, tão forte e com vários efeitos colaterais, prescrita caso necessário, e que já seria ministrada se eu não tivesse negado e pedido para conferir.

Não sei se você continua aqui, após o que pode ter parecido uma ladainha de reclamações. Se sim, obrigada por acolher o desabafo de quem fica se perguntando: por que não posso esperar os devidos cuidados com a saúde em um hospital?

Essa pergunta gera outras, olhando além para a sociedade atual: por que não necessariamente a escola é lugar de educação, a polícia de segurança e a igreja de espiritualidade? O que acontece com nossas instituições?

(Escrito em 09/04/2018, durante a 4ª internação do ano de minha mãe)

Pathético desnudamento

A pedra foi retirada. E ela era muito grande.

Desnudada, reconheço o amor.

Mas não o sei viver.

Viver segundo as promessas, que são suas, permanecendo no tempo – Chrónos e Kairós – transpassada pela espada, fagulha pathética que atravessa os corações tão padecidos quanto apaixonados.

Viveste assim: possuído pelo Amor, levantaste da mesa, retiraste o manto, tomaste uma toalha e te cingiste com ela. Em seguida, sem demora, começaste a lavar os pés daqueles.

Aqueles a quem chamavas “amigos”.

Aqueles com quem estavas unido por uma doce intimidade.

Companheiros com quem partias o mesmo pão.

Aqueles cuja traição não é possível suportar.

Mas suportaste.

Suportaste e carregaste para fora.

Suportaste e perdoaste.

Suportaste e redimiste.

Suportaste e transformaste.

Saberei eu também padecer o amor?

Ensina-me a, como Tu, não apenas sofrer o fracasso, mas assumi-lo, colocá-lo aos ombros e ir até o fim.

Ajuda-me a não voltar atrás do que até agora, contigo, vivi e falei.

Para que eu possa, como Tu, viver na carne segundo o Espírito, ensina-me a rezar a tua oração, a que transforma o derramamento de sangue em oferenda. Quando todo clamor e lágrimas, te apresentaste por inteiro Àquele em cujas mãos tudo se afirma e tudo cresce.

Ensina-me a trocar por ofertar e abandonar-me verbos tão corriqueiros para mim, como ter, reter, ganhar, conquistar, dominar, competir, possuir, poder, vencer.

A pedra foi retirada.

Aquela que me esmagava, mas também me escondia.

Desnudada, seguirei teus passos?

“Tu o dizes”, respondes-me na Paixão.

Empresta-me tuas palavras, para que as minhas sejam: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”.

(Escrito na Semana Santa de 2009)