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Aprendizados com o assalto

Ontem roubaram meu celular, quase dobrando a esquina da minha rua, há uns 200 metros de casa. Quantas sensações e pensamentos passam a partir dessa experiência!

Na hora, uma mistura de não acreditar que realmente os dois que se aproximaram bem vestidos e com gestos e tom de voz de quem pede informação, na verdade diziam: “Não se mexa nem diga nada e passe o celular!”; e de ainda tentar fazer algo. É incrível como não dá para saber como iremos reagir até que aconteça.

Aliás, eu, que aconselharia qualquer um a não reagir, olhei para trás, me movi, pedi “por favor, não!” e por um tris não gritei e corri. Um me segurou e o outro tirou o aparelho da minha bolsinha, procurando também por dinheiro, que não havia.

Fazer o quê? Caminhar para casa, entre nervosismo, impotência e solidão, para o quanto antes bloquear linha e aparelho e registrar a ocorrência. Essas horas em que a gente tem que agir como adulto, mas só queria colo, são bem confusas emocionalmente.

A real é que estou com raiva até agora, sobretudo pelo tempo danado que me fizeram gastar, com todas as providências – bloqueios e registros, aviso de sinistro (até ser atendido!), juntar todos os documentos para dar entrada no seguro, enviar, gastar com impressão e scanner, comprar chip, habilitar no celular velhinho que estava no armário, verificar se o mais importante foi recuperado no último backup, pedir o que não foi…. por aí vai…. Raiva!

E o primeiro é assumir e vivenciar o sentimento. Ok, graças a Deus não me fizeram nada, foi só um bem material, e ainda olha que sorte! Estava segurado, vou gastar, mas menos do que se não tivesse… e, olha, podia ter sido pior, imagine se os documentos tivessem ido junto…. Ok, ok, ok; mas, agora, o que sinto é outra coisa, e faço questão de admitir para mim mesma.

Mas não só. Veio uma necessidade enorme de processar o vivido, nos links que automaticamente ele fez com outras dimensões da vida – os relacionamentos, os desejos, os registros (com as memórias e perdas, o que foi salvo e o que não…), minhas forças e fragilidades, o que realmente importa e onde fica a alegria em tudo isso. E a você, que está lendo até agora, agradeço de coração pela empatia.

Listo, então, tudo o que me ocorreu (ou tudo do que me lembro agora):

– Respire, não pire… e resolva, não espere.

– Como o apoio de quem te quer bem faz toda a diferença, mesmo que na forma de palavras.

– Receba-o, então, p.! Acolha, curta, agradeça, mereça, reconheça, cultive.

– Expectativa é uma merda (desculpem, não achei termo polido que expressasse).

– A faxina das conversas virtuais ou Vale a pena continuar um papo após a frustração das expectativas?

– Situações difíceis reafirmam o desejo de companheirismo, mas também a potencialidade de se virar na vida.

– Dê a si mesmo o carinho que espera, traduzido como for (descanso, série da Netflix, banho gostoso, incentivo e até um autoabraço).

– Limites e fragilidades – invocamos os “deuses” e as “deusas”, mas, se em algum instante quase nos confundimos com eles(as), a vida joga uma impotência na nossa cara, a fim de nos lembrarmos do pó que somos.

– Possibilidades e dons – no desafio de levantar após uma queda e tirar forças de onde parece não haver, vivenciamos que o sopro divino, sim, está e atua em nós.

– Calma, também aprendi a marcar direitinho o ponto de encontro no Carnaval para poder sair sem o celular! E que sai menos caro fazer o seguro.

Como este texto já está enorme, comprometo-me a voltar em algum desses pontos, pois acho que cada um dá o que pensar! E traz aspectos nos quais se deixar transformar.

Gratidão por ter me acompanhado até aqui. Espero que em algo essa reflexão tenha contribuído com você, pois, para mim, trouxe mudanças – em estado de espírito e ressignificação da experiência.

(Escrito em 17/02/2020, um dia depois de roubo perto de casa)

Alma mineira no altar

Outro dia, finalmente fui ao famoso Museu da Vale em Belo Horizonte (Memorial Minas Gerais Vale), do qual muitas pessoas, sobretudo as de fora da cidade que vêm conversar comigo, mencionam com elogios. Sempre fico envergonhada, pois quando vou a BH é correndo, com compromissos familiares e outros e nunca tinha ido.

Dessa vez, fui. Não porque estivesse indo mesmo, mas porque, passando para resolver uma questão com um amigo, tive que esperar. Aproveitei, então, os 20 minutos que tinha para dar uma panorâmica (ou seja, super vale voltar).

O que mais me encantou é como expressa o sentimento mineiro, em suas mais diversas manifestações – artísticas, culturais, religiosas, econômicas, políticas e sociais. Expressa bem o povo mineiro!

Uma das salas falava da magia que está na alma do povo. Outra, na qual estavam as festas  religiosas, fez-me lembrar de várias das quais já participei – no interior do Estado, sobretudo, onde as tradições ainda são mais de raiz.

Estava lá, bem grande, uma imagem do Divino Espírito Santo. Lembrei-me da festa do Divino, em Minas Novas (Vale do Jequitinhonha), mas também do que acabei de ganhar e está no meu altar. E agora, olhando para o meu altar, sinto muito a própria trajetória e como que o resgate dessa alma, da “magia” mineira.

Agradeço à minha mãe, de ter-me dado a “ilustração” na fé, de poder discutir “fé e razão”, etc e tal, e depois todo o aprofundamento teológico. No entanto, parece que, a partir dessa base, que não me deixa estar numa “primeira inocência” – e acho que isso é bom – creio que, há um tempo, vem sendo recuperado em mim algo de um sentimento mais profundo, uma confiança mais primordial.

Vejo o meu altar, e hoje tem bastante mistura. Sem contar que tem detalhes de tantas pessoas que me marcam! Da amiga querida, que faz essas lindas velas com as palavras-valores; do amigo que me deu a casinha e fez um processo tão bonito comigo um dia, que deixou essas marcas de velas grudadas no altar, e agora está me levando para um caminho que rompe tanto as barreiras de uma religião definida; de um passeio no parque, do qual trouxe o fruto; da minha colega de trabalho, que fez essa guia tão linda e especial, pedindo à Divindade um desejo que é tão meu. A fita do Senhor do Bonfim, o Divino que ganhei da minha afilhada, o Shalom feito por monges beneditinas e ganhado de outra grande amiga, a história desse tronco que virou altar, de um passeio em Embu. Até uma mandala tem ali – de Aparecida, na promessa da fecundidade. Como tem história ali! Muita!

E esse marujo? Agora me colocaram num grupo com esse nome e lembrei deste do meu altar. Como as coisas vão se encontrando na vida, se a gente está atento aos sinais! E sinal é muito isso de alma mineira! A mágica está ligada aos sinais, tão presentes para os ancestrais indígenas e africanos. O tempo doido em que vivemos essa pressa não nos deixa perceber.

Mas como este marujo tem história! Já me tirou de cada ilha tão bonita pra fazer voltar a navegar! Ai, como já chorei na frente deste altar! “Não! Nessa ilha eu quero ficar!” Mas o chamado a ir para águas mais profundas do amor – “ainda não chegou a ilha definitiva, tem mais depois desta!”

É… tem uma alma mineira sendo resgatada aqui. Agradeço tanto por isso! Tanto pela abertura que esse altar hoje representa: abertura interreligiosa, intercultural… Abertura que quero e desejo muito mais! Pois, como diria um bom mineirinho: “Deus não tem limite não!” Nem o Self. É nosso ego tão pequeno, estruturado e às vezes enrijecido que nos faz ficar em caixinhas, quadrados, nos quais muitas vezes me meto. Mas cada vez mais estou saindo, e desejo que cada um que cruze o meu caminho também possa de alguma forma sair, se abrir, descobrir esses horizontes e navegar como marujo pelo mar da vida.

(Escrito em 04/02/2020, alguns dias após a visita ao Memorial Minas Gerais Vale)

Amor, I love you!

Hoje, voltando pra casa, tocou no rádio do carro essa música, que já ouvi tantas e tantas vezes. Mas, de repente, percebi algo que me deixou de tal forma encantada que não consegui ouvir nada mais além disto: “Amor, I love you”. Naquele momento, não me interessava saber a quem o compositor ou a cantora dirigia esses versos, porque o que eu me dava conta é de que se trata de uma declaração de amor ao Amor.

Passou um filme em minha cabeça de algo acontecido não faz muito tempo, o meu jantar com o Amor. Tomei a decisão livre de preparar uma comida especial para alguém, sabendo que a pessoa convidada também era livre em sua resposta ao convite. Era meu desejo fazer e foi a ele que atendi. Pouco antes da hora marcada, tendo chegado o “não”, olhei para a mesa posta, para mim mesma pronta e para a comida preparada e senti o convite dO Amor: “Coloque tudo nas travessas escolhidas e vamos jantar juntos!”

Tudo servido duplamente, foi uma noite maravilhosa! A entrega se transformou em oferenda e o tributo ao Amor abriu o fluxo da Vida.  No dia seguinte, já começaram as transformações, que uma vez mais não foram lidas como perdas, mas oportunidade de um novo caminho, aberto à minha frente. Fácil? De forma alguma! Mas repleto de fé na abundância e liberdade de filha amada.

Continuo desejando viver um amor humano, de carne e osso, com suas qualidades e limitações, com quem haja uma decisão mútua de trilhar caminho juntos. Mas descubro cada vez mais que, com ou sem ele – que já está chegando, tá dobrando a esquina –, o que preciso/ precisamos a cada dia é viver nO Amor, dO Amor e para O Amor.

Amor, I love you!

Gratidão.

(Escrito em 23/01/2020, após ouvir o refrão na doce voz de Marisa Monte)

Aprendendo a gostar das reticências…

Não conversei com meu professor-orientador-amigo de quem eu sou fã sobre isto, mas, na minha cabecinha nem sempre tão boa das ideias, as reticências revelam-se bem levinasianas.  Elas nos escapam e ajudam a ir além, tomados pelo Rosto. Não dá para dizer o que são. Porque elas não são.

Ponto final, exclamação, interrogação, é tudo tão categórico! Até uma vírgula às vezes pode ser opressora, já diria quem sofre para usá-la e se perde nas regras.

Mas as reticências, assim como o gerúndio, fazem a gente não parar na primeira impressão, não tomar conclusões precipitadas e sobretudo continuar; seguir em frente, sem definição nem enquadramentos.

Não sei se elas ouviram falar do sábio filósofo da alteridade; mas talvez tenham contemplado com Rubem Alves a gota de orvalho na folha de couve…

Reticências nos dão tempo e espaço para – quem sabe… – nos deixar encontrar.

Olha procês verem: elas nos dão pausa…

….para uma xícara de café…

… para uma música…

… para mais uma cena…

… quem sabe até um filme completo…

Elas permitem ver, se dar conta, enxergar as marcas do Rosto do outro…

Permitem o olhar…

O sorriso… ou mesmo a lágrima…

Elas me permitem narrar sem definir…

Permitem….

Por isso, neste momento, a elas agradeço

e delas afirmo com muitas exclamações: curtooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(Escrito em 26/11/2019, em meio a recentes memórias)

Entre o céu e a terra

De repente chega um aviso,

evocando força e bondade.

O materno e o paterno se unem

para que o velho seja entregue de vez

e a passagem se complete.

 

O coração se perturba e se alegra,

misto de susto e confiança.

Quem sou eu para que tais figuras

venham me visitar?

 

Aqui estão as rosas brancas.

Aqui estou eu e tudo o que sou e tenho.

“Que mandais fazer de mim?”

 

O Evangelho do dia já evocava a oração.

É tudo o que eu preciso,

apesar de nem saber como.

 

Só tenho a agradecer,

mas não consigo deixar de pedir também.

Peço sabedoria.

“Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”.

E bem conheces meu coração.

 

Mãe, é verdade: eu não entendo tanta coisa!

O caminho viciado atrapalha as novas trilhas,

e aquela que me toma muito me cega.

Eis-me aqui!

 

Ensina-me a lidar com a força que não controlo

e a acolher com prudência o selvagem

que me conduz na travessia,

mas também pode devorar.

(Escrito em 29/10/2019, num sonolento despertar)

Príncipe pai

Hoje eu vi os seus filhos.

Loirinhos… lindos!

Até podiam ser meus!

É tão bonito contemplar um sonho realizado!

Mais de 20 anos depois…

Não há tempo para isso; não é Chronos quem manda aqui.

E eu com tanto medo dele!

Sim, não deixa de ser real…

Mas guiam mais outros deuses,

esses que fizeram uma semente cada vez mais rara

brotar no seu coração adolescente, permanecer e germinar.

Só desejo o bem para você, seus rebentos e aquela que teve a sorte de encontrá-lo na madurez.

Você marcou alguns ciclos na minha vida, importantes fases de mudança,

relacionadas ou não a você, mas seladas por sua presença.

Agora, pela terceira década seguida,

porei os pés na sua cidade.

Desta vez não tem absolutamente a ver com você

e não o verei, a não ser que a vida nos pregue uma peça,

que não busco, nem buscarei.

Desejo, sim, uma transformação,

que mais uma vez seja o início de uma nova fase.

E nesse sentido suas últimas palavras presenciais

bradam quais tambores de guerra,

a guerra da paz.

São quase que meu único farol

em meio à neblina desta ponte

que preciso, por questão de vida ou morte,

terminar de atravessar –

mesmo sem ver.

Da última vez eu não o reconheci;

mas agora reconheço.

É chegada a hora da síntese!

Peça aos seus deuses,

esses que lhe deram rumo e prumo,

acompanhar minha travessia,

para que a vida que brilha à frente,

não atrás,

encontre em mim seu merecido espaço

para a construção de um lar.

Eu…

sou grata!

(Escrito em 13/08/2019, três dias antes de voar a Brasília)

Tão longe, tão perto…

Hoje fazem dois meses que você se foi.

Por que a sua ausência é tão presente

que parece estar do meu lado?

Ainda a vejo e quase a toco,

concentrada sou capaz de sentir o seu cheiro.

Seu sorriso, seu olhar, suas bênçãos, seu amor

acompanham-me a cada dia.

Não estou dilacerada por você, que foi suave a vida inteira

e até na partida!

Claro que a saudade às vezes pega,

de algumas coisas que não haverá mais possibilidade,

fazem parte do “nunca mais” que só a Katrina é capaz de trazer:

do beijinho de esquimó, das mãos entrelaçadas, da fungada no pescoço,

dos abraços arrochados em que eu só não quebrava você porque, nestes

últimos tempos em que nossos papeis inverteram-se sem se inverter,

descobri que pata de pinto também não mata galinha (você sempre falou

– pelo seu jeito desastrado que também herdei – que “pata de galinha não mata pinto”).

Pois é, a sua voz… o “Tan, Tan, Tan!”, na tentativa de dizer o meu nome, suas quase últimas palavras antes que se calasse totalmente.

Não a sinto distante, mas tão comigo que está menos difícil viver esta nossa fase do que eu poderia imaginar!

Há ausências mais ausentes. Essas, sim, arrebentam. São como facadas que cortam, rasgam, fazem sangrar dia após dia. Será que lhes falta o beijo da morte, e a sensação de estar a um estender das mãos – ou teclar de celular –, por um tris, dói mais? Ou será que insinuam uma presença ausente que não se quer admitir? Tão perto, tão longe…

Mas a você, mãe, eu digo: Obrigada, por estar bem e ainda me fazer o bem.

Tão longe, tão perto!

(Escrito em 02/02/2019)