Entre o céu e a terra

De repente chega um aviso,

evocando força e bondade.

O materno e o paterno se unem

para que o velho seja entregue de vez

e a passagem se complete.

 

O coração se perturba e se alegra,

misto de susto e confiança.

Quem sou eu para que tais figuras

venham me visitar?

 

Aqui estão as rosas brancas.

Aqui estou eu e tudo o que sou e tenho.

“Que mandais fazer de mim?”

 

O Evangelho do dia já evocava a oração.

É tudo o que eu preciso,

apesar de nem saber como.

 

Só tenho a agradecer,

mas não consigo deixar de pedir também.

Peço sabedoria.

“Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”.

E bem conheces meu coração.

 

Mãe, é verdade: eu não entendo tanta coisa!

O caminho viciado atrapalha as novas trilhas,

e aquela que me toma muito me cega.

Eis-me aqui!

 

Ensina-me a lidar com a força que não controlo

e a acolher com prudência o selvagem

que me conduz na travessia,

mas também pode devorar.

(Escrito em 29/10/2019, num sonolento despertar)

Príncipe pai

Hoje eu vi os seus filhos.

Loirinhos… lindos!

Até podiam ser meus!

É tão bonito contemplar um sonho realizado!

Mais de 20 anos depois…

Não há tempo para isso; não é Chronos quem manda aqui.

E eu com tanto medo dele!

Sim, não deixa de ser real…

Mas guiam mais outros deuses,

esses que fizeram uma semente cada vez mais rara

brotar no seu coração adolescente, permanecer e germinar.

Só desejo o bem para você, seus rebentos e aquela que teve a sorte de encontrá-lo na madurez.

Você marcou alguns ciclos na minha vida, importantes fases de mudança,

relacionadas ou não a você, mas seladas por sua presença.

Agora, pela terceira década seguida,

porei os pés na sua cidade.

Desta vez não tem absolutamente a ver com você

e não o verei, a não ser que a vida nos pregue uma peça,

que não busco, nem buscarei.

Desejo, sim, uma transformação,

que mais uma vez seja o início de uma nova fase.

E nesse sentido suas últimas palavras presenciais

bradam quais tambores de guerra,

a guerra da paz.

São quase que meu único farol

em meio à neblina desta ponte

que preciso, por questão de vida ou morte,

terminar de atravessar –

mesmo sem ver.

Da última vez eu não o reconheci;

mas agora reconheço.

É chegada a hora da síntese!

Peça aos seus deuses,

esses que lhe deram rumo e prumo,

acompanhar minha travessia,

para que a vida que brilha à frente,

não atrás,

encontre em mim seu merecido espaço

para a construção de um lar.

Eu…

sou grata!

(Escrito em 13/08/2019, três dias antes de voar a Brasília)

Tão longe, tão perto…

Hoje fazem dois meses que você se foi.

Por que a sua ausência é tão presente

que parece estar do meu lado?

Ainda a vejo e quase a toco,

concentrada sou capaz de sentir o seu cheiro.

Seu sorriso, seu olhar, suas bênçãos, seu amor

acompanham-me a cada dia.

Não estou dilacerada por você, que foi suave a vida inteira

e até na partida!

Claro que a saudade às vezes pega,

de algumas coisas que não haverá mais possibilidade,

fazem parte do “nunca mais” que só a Katrina é capaz de trazer:

do beijinho de esquimó, das mãos entrelaçadas, da fungada no pescoço,

dos abraços arrochados em que eu só não quebrava você porque, nestes

últimos tempos em que nossos papeis inverteram-se sem se inverter,

descobri que pata de pinto também não mata galinha (você sempre falou

– pelo seu jeito desastrado que também herdei – que “pata de galinha não mata pinto”).

Pois é, a sua voz… o “Tan, Tan, Tan!”, na tentativa de dizer o meu nome, suas quase últimas palavras antes que se calasse totalmente.

Não a sinto distante, mas tão comigo que está menos difícil viver esta nossa fase do que eu poderia imaginar!

Há ausências mais ausentes. Essas, sim, arrebentam. São como facadas que cortam, rasgam, fazem sangrar dia após dia. Será que lhes falta o beijo da morte, e a sensação de estar a um estender das mãos – ou teclar de celular –, por um tris, dói mais? Ou será que insinuam uma presença ausente que não se quer admitir? Tão perto, tão longe…

Mas a você, mãe, eu digo: Obrigada, por estar bem e ainda me fazer o bem.

Tão longe, tão perto!

(Escrito em 02/02/2019)

Ele assumiu nossa própria carne

Passando pelo centro de Belo Horizonte, vi a irmã da Xuxa, uma pessoa em situação de rua que há 15 anos encontrava mais ou menos pelo mesmo lugar. Como na época sua condição já era precária, não achei que ainda a veria.

Sua irmã estava pedindo para comer, como sói fazer. Impressionou-me a magreza doentia, o rosto calavérico. Quanta dor! Logo, porém, começaram a vir aqueles pensamentos que nos ocorrem para tampar a cruel impotência, ou impotente crueldade de nossa participação num pecado social, que no fundo sabemos que assinamos embaixo ao tentar ignorar e viver a medíocre vida de classe média. “Também, é a droga que faz isso!”

Que importa achar explicação para uma “droga” que é bem maior e sistêmica? Lembrei-me na hora da sabedoria oriental que ensina que não dá para falar do irmão antes de ter caminhado sete dias com seus sapatos. Só veio isto: “vá viver um dia desta vida!”

Segui meu caminho para a Igreja, neste tempo de Natal. E aí o susto: “Cara, Jesus viveu a nossa vida!” Isso que nos custa imaginar, tomar por um dia que fosse o lugar da irmã da Xuxa ou de qualquer um dos sofredores de nossa realidade, Ele fez! Este é o mistério do Natal! A encarnação do Filho de Deus! Ele assumiu a nossa vida, nossa própria carne, com suas marcas e dores. Fez-se um de nós, tomou nosso lugar, com tudo o que lhe supôs.

Que neste Natal, esqueçamos um pouquinho Papai Noel, incapaz até de trocar de roupa em nosso clima tropical, e centremos nosso olhar nAquele que toma não só nossas roupas e cultura, mas nossa pele, nossa carne, com seus processos e desafios. Que a pobreza do presépio nos toque e deixemo-nos conduzir por Aquele que, “sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza”, a ponto de deixarmos de ignorar a pobreza do nosso mundo, mas perguntarmos a cada dia: O que posso fazer com a riqueza dos dons, talentos e oportunidades que a vida me deu?

(Escrito em 23/12/2018, na preparação para o Natal)

Filha do pai

Hoje é aniversário do meu tio, que muito me emocionou na missa de sétimo dia da minha mãe, por estar a cara do meu pai. Com a idade, eles já vinham se parecendo cada vez mais, a ponto do papai, já no hospital, chamá-lo de “xerox”, dado o número de enfermeiras que lhe perguntavam: “É seu irmão? Como parece!”

Na semana da missa, já vinha pensando muito no meu pai – na entrega que lhe fiz da minha mãe, após cumprir a missão que lhe prometi em seu leito de morte, de que cuidaria dela; no tempo de ausência e a presença que já era sutil, precisava concentrar-me para ter diante dos olhos do coração o seu rosto, tão diferente da mamãe que se foi agora e sequer fechar os olhos preciso para vê-la; da força que necessitava dele neste momento; e do que ainda haveria de encarar do complexo paterno… Com tudo isso rondando mente e coração, dou um salto pra trás ao vê-lo de carne e osso diante de mim na pessoa do meu tio.

Ligando hoje para o aniversariante e falando primeiro com minha tia, ela o chama assim: “A Tania do Miguel”. Que emoção ouvir algo que há tempos não ouvia e do que já havia me esquecido: eu sou a Tania do Miguel!

Há muito tempo sou a Tania da Amelia. Aliás, às vezes era até quase a própria Amelia, pelo menos a voz e o entendimento de alguém que já em grande parte se havia desconectado da nossa realidade e compreendia tudo de uma maneira que ainda não nos é acessível. De muitas pessoas que encontrava a primeira pergunta recebida era: “Como está a sua mãe?” Super compreensível! Mas a gente chega a esquecer – ou precisa fazer um esforço pra se lembrar – de que tem vida própria.

Agora ela se foi. Ainda estou cuidando de suas coisas, bastante, aliás. Acho que a morte é uma passagem não só para quem se vai, mas também para quem fica. Não é tão imediato assim. Hoje levo um susto com quem pergunta sobre mim. É estranho, não sei responder, uma mistura, muitas coisas. A maneira como por muito tempo fui “definida” não me “define” mais. Perguntam-me pela minha vida e aí é que me dou conta de que tenho uma vida, um caminho independente começa a se abrir diante de mim. Estou jogada na vida.

Engraçado como o que está à frente busca as raízes. Não há passado, presente e futuro para o que faz parte da essência. Tia Aparecida acabou de pescar no poço profundo: a Tania do Miguel. O que será que há nessas 13 letras arranjadas de uma forma que tanto me tocou?

(Escrito em 23/12/2018, após ligar pro tio Silvio)

Hoje eu chorei você

Hoje eu chorei você.

E como precisava dessas lágrimas

que calorosa e suavemente rolaram

por causa de uma estrela!

 

Não imaginava que cairiam.

Havia entendido a meta

e o chamado das estrelas.

Mesmo que não o caminho,

achei que bastava.

 

Por longos dias incomodou-me

nossa partida,

que uma razão sem razão provocou

após a pathética despedida

de quem foi, mas não foi.

 

Você que toma o caminho de Jerusalém

sabe – deve saber – o que nos faz o pathos.

Hoje, quando cantaram o amor,

entre a ascensão e a decadência,

eu finalmente chorei.

 

Não sei se lavou-me a alma,

parece que precisa mais.

Mas lubrificou-a,

trazendo de novo aos olhos

o brilho das estrelas.

 

Que a morte faça o seu papel,

leve e nos leve para a vida.

Só não deixe cair na banal aridez

o que ainda é, de água, pura fonte.

 

(20/11/2018, após assistir a “Nasce uma estrela”, sob o efeito da última canção)

Os desequilíbrios nossos de cada dia

Não sei se é porque sou muito miúda ou se acontece com vocês também, mas ultimamente caminhar pelos passeios é uma aventura, porque tenho que ficar o tempo inteiro me desviando das pessoas para não levar trombadas. Pode ser em horário de pico, com tudo lotado, ou no meio da manhã em passeios largos de grandes avenidas, com poucos transeuntes. Não importa: o risco de levar tapas ou até ser arremessada longe apresenta-se constantemente.

A maioria é por distração com o celular. As pessoas caminham pelas calçadas vidradas nas telinhas, lendo, digitando ou com aquele movimento típico do dedo passando por timelines. Fico pensando se dão direto nos postes, porque em mim, se não saio da frente, batem em cheio.

Outras, no entanto, intrigam-me ainda mais. Não têm coisa alguma nas mãos; pelo menos, fontes evidentes de distração não. Porém, agem como se não houvesse ninguém mais. Mudam de faixa de uma vez – bom, um parêntesis: talvez isso seja TOC, mas eu acho que seria mais fácil se a gente caminhasse de forma reta, pelo menos em passeios movimentados. A isso chamo de faixa. E aí desse uma olhadinha para ir para um lado ou para o outro.

Continuando, mudam de faixa de uma vez, param em seco, viram-se para trás com ar de perdidas ou fazem movimentos bruscos com os braços, como apontar para algum lugar. Agradeço à dança, sobretudo ao Zouk, que aumentou em muito meus reflexos e me ajuda a fazer ondinhas e tiradas de cabeça, de tronco ou de quadril que já me livraram de vários hematomas. Nessas horas em que preciso rebolar no meio da rua, até penso se eu é que emagreci tanto que está difícil ser vista. Mas aí observo que magras, gordas, baixas ou altas, as pessoas não estão se enxergando.

O outro está deixando de existir. Caminhar pelos passeios (quase) trombando em várias pessoas é apenas um sintoma. Só que, sem o outro, perde-se a si mesmo também. Caim matou Abel e andou errante pelo resto da vida. Será que o desequilíbrio no modo de andar não revela, então, uma falta de equilíbrio muito mais profunda, uma desarmonia interior? Onde vamos parar – e como vamos – na ausência ou invisibilidade dos rostos?

(Escrito em 06/09/2018, após percurso a pé em Belo Horizonte)