Alma mineira no altar

Outro dia, finalmente fui ao famoso Museu da Vale em Belo Horizonte (Memorial Minas Gerais Vale), do qual muitas pessoas, sobretudo as de fora da cidade que vêm conversar comigo, mencionam com elogios. Sempre fico envergonhada, pois quando vou a BH é correndo, com compromissos familiares e outros e nunca tinha ido.

Dessa vez, fui. Não porque estivesse indo mesmo, mas porque, passando para resolver uma questão com um amigo, tive que esperar. Aproveitei, então, os 20 minutos que tinha para dar uma panorâmica (ou seja, super vale voltar).

O que mais me encantou é como expressa o sentimento mineiro, em suas mais diversas manifestações – artísticas, culturais, religiosas, econômicas, políticas e sociais. Expressa bem o povo mineiro!

Uma das salas falava da magia que está na alma do povo. Outra, na qual estavam as festas  religiosas, fez-me lembrar de várias das quais já participei – no interior do Estado, sobretudo, onde as tradições ainda são mais de raiz.

Estava lá, bem grande, uma imagem do Divino Espírito Santo. Lembrei-me da festa do Divino, em Minas Novas (Vale do Jequitinhonha), mas também do que acabei de ganhar e está no meu altar. E agora, olhando para o meu altar, sinto muito a própria trajetória e como que o resgate dessa alma, da “magia” mineira.

Agradeço à minha mãe, de ter-me dado a “ilustração” na fé, de poder discutir “fé e razão”, etc e tal, e depois todo o aprofundamento teológico. No entanto, parece que, a partir dessa base, que não me deixa estar numa “primeira inocência” – e acho que isso é bom – creio que, há um tempo, vem sendo recuperado em mim algo de um sentimento mais profundo, uma confiança mais primordial.

Vejo o meu altar, e hoje tem bastante mistura. Sem contar que tem detalhes de tantas pessoas que me marcam! Da amiga querida, que faz essas lindas velas com as palavras-valores; do amigo que me deu a casinha e fez um processo tão bonito comigo um dia, que deixou essas marcas de velas grudadas no altar, e agora está me levando para um caminho que rompe tanto as barreiras de uma religião definida; de um passeio no parque, do qual trouxe o fruto; da minha colega de trabalho, que fez essa guia tão linda e especial, pedindo à Divindade um desejo que é tão meu. A fita do Senhor do Bonfim, o Divino que ganhei da minha afilhada, o Shalom feito por monges beneditinas e ganhado de outra grande amiga, a história desse tronco que virou altar, de um passeio em Embu. Até uma mandala tem ali – de Aparecida, na promessa da fecundidade. Como tem história ali! Muita!

E esse marujo? Agora me colocaram num grupo com esse nome e lembrei deste do meu altar. Como as coisas vão se encontrando na vida, se a gente está atento aos sinais! E sinal é muito isso de alma mineira! A mágica está ligada aos sinais, tão presentes para os ancestrais indígenas e africanos. O tempo doido em que vivemos essa pressa não nos deixa perceber.

Mas como este marujo tem história! Já me tirou de cada ilha tão bonita pra fazer voltar a navegar! Ai, como já chorei na frente deste altar! “Não! Nessa ilha eu quero ficar!” Mas o chamado a ir para águas mais profundas do amor – “ainda não chegou a ilha definitiva, tem mais depois desta!”

É… tem uma alma mineira sendo resgatada aqui. Agradeço tanto por isso! Tanto pela abertura que esse altar hoje representa: abertura interreligiosa, intercultural… Abertura que quero e desejo muito mais! Pois, como diria um bom mineirinho: “Deus não tem limite não!” Nem o Self. É nosso ego tão pequeno, estruturado e às vezes enrijecido que nos faz ficar em caixinhas, quadrados, nos quais muitas vezes me meto. Mas cada vez mais estou saindo, e desejo que cada um que cruze o meu caminho também possa de alguma forma sair, se abrir, descobrir esses horizontes e navegar como marujo pelo mar da vida.

(Escrito em 04/02/2020, alguns dias após a visita ao Memorial Minas Gerais Vale)

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