Filha do pai

Hoje é aniversário do meu tio, que muito me emocionou na missa de sétimo dia da minha mãe, por estar a cara do meu pai. Com a idade, eles já vinham se parecendo cada vez mais, a ponto do papai, já no hospital, chamá-lo de “xerox”, dado o número de enfermeiras que lhe perguntavam: “É seu irmão? Como parece!”

Na semana da missa, já vinha pensando muito no meu pai – na entrega que lhe fiz da minha mãe, após cumprir a missão que lhe prometi em seu leito de morte, de que cuidaria dela; no tempo de ausência e a presença que já era sutil, precisava concentrar-me para ter diante dos olhos do coração o seu rosto, tão diferente da mamãe que se foi agora e sequer fechar os olhos preciso para vê-la; da força que necessitava dele neste momento; e do que ainda haveria de encarar do complexo paterno… Com tudo isso rondando mente e coração, dou um salto pra trás ao vê-lo de carne e osso diante de mim na pessoa do meu tio.

Ligando hoje para o aniversariante e falando primeiro com minha tia, ela o chama assim: “A Tania do Miguel”. Que emoção ouvir algo que há tempos não ouvia e do que já havia me esquecido: eu sou a Tania do Miguel!

Há muito tempo sou a Tania da Amelia. Aliás, às vezes era até quase a própria Amelia, pelo menos a voz e o entendimento de alguém que já em grande parte se havia desconectado da nossa realidade e compreendia tudo de uma maneira que ainda não nos é acessível. De muitas pessoas que encontrava a primeira pergunta recebida era: “Como está a sua mãe?” Super compreensível! Mas a gente chega a esquecer – ou precisa fazer um esforço pra se lembrar – de que tem vida própria.

Agora ela se foi. Ainda estou cuidando de suas coisas, bastante, aliás. Acho que a morte é uma passagem não só para quem se vai, mas também para quem fica. Não é tão imediato assim. Hoje levo um susto com quem pergunta sobre mim. É estranho, não sei responder, uma mistura, muitas coisas. A maneira como por muito tempo fui “definida” não me “define” mais. Perguntam-me pela minha vida e aí é que me dou conta de que tenho uma vida, um caminho independente começa a se abrir diante de mim. Estou jogada na vida.

Engraçado como o que está à frente busca as raízes. Não há passado, presente e futuro para o que faz parte da essência. Tia Aparecida acabou de pescar no poço profundo: a Tania do Miguel. O que será que há nessas 13 letras arranjadas de uma forma que tanto me tocou?

(Escrito em 23/12/2018, após ligar pro tio Silvio)

8 comentários em “Filha do pai”

  1. Excelente. Uma construção sem construção, um lugar sem lugar e aí vc vivendo algo que ainda não tinha construção mas que tinha um lugar na vida vivida por vc e com vc. Vá desenhando pois vamos realmente nos encontrando.

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  2. Sabe prima você realmente é a Tânia do Miguel pois ele sempre foi Fortaleza da família sempre tinha uma palavra um conselho um jeito que é único e só dele de demonstrar amor e carinho pelos familiares e nunca os abandonou e hoje você é a mistura dos dois acalentado curado almas ajudado pessoa a se requerem sabe você é o tesouro deles a jóia mais valorosa que eles deixaram aqui para transformar o mundo pois eles te deram a maior formação a de amar ao próximo e ser esta luz transformadora mo caminho das pessoas um forte abraço apertado prima bjs

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