Os desequilíbrios nossos de cada dia

Não sei se é porque sou muito miúda ou se acontece com vocês também, mas ultimamente caminhar pelos passeios é uma aventura, porque tenho que ficar o tempo inteiro me desviando das pessoas para não levar trombadas. Pode ser em horário de pico, com tudo lotado, ou no meio da manhã em passeios largos de grandes avenidas, com poucos transeuntes. Não importa: o risco de levar tapas ou até ser arremessada longe apresenta-se constantemente.

A maioria é por distração com o celular. As pessoas caminham pelas calçadas vidradas nas telinhas, lendo, digitando ou com aquele movimento típico do dedo passando por timelines. Fico pensando se dão direto nos postes, porque em mim, se não saio da frente, batem em cheio.

Outras, no entanto, intrigam-me ainda mais. Não têm coisa alguma nas mãos; pelo menos, fontes evidentes de distração não. Porém, agem como se não houvesse ninguém mais. Mudam de faixa de uma vez – bom, um parêntesis: talvez isso seja TOC, mas eu acho que seria mais fácil se a gente caminhasse de forma reta, pelo menos em passeios movimentados. A isso chamo de faixa. E aí desse uma olhadinha para ir para um lado ou para o outro.

Continuando, mudam de faixa de uma vez, param em seco, viram-se para trás com ar de perdidas ou fazem movimentos bruscos com os braços, como apontar para algum lugar. Agradeço à dança, sobretudo ao Zouk, que aumentou em muito meus reflexos e me ajuda a fazer ondinhas e tiradas de cabeça, de tronco ou de quadril que já me livraram de vários hematomas. Nessas horas em que preciso rebolar no meio da rua, até penso se eu é que emagreci tanto que está difícil ser vista. Mas aí observo que magras, gordas, baixas ou altas, as pessoas não estão se enxergando.

O outro está deixando de existir. Caminhar pelos passeios (quase) trombando em várias pessoas é apenas um sintoma. Só que, sem o outro, perde-se a si mesmo também. Caim matou Abel e andou errante pelo resto da vida. Será que o desequilíbrio no modo de andar não revela, então, uma falta de equilíbrio muito mais profunda, uma desarmonia interior? Onde vamos parar – e como vamos – na ausência ou invisibilidade dos rostos?

(Escrito em 06/09/2018, após percurso a pé em Belo Horizonte)

2 comentários em “Os desequilíbrios nossos de cada dia”

  1. N sei te dizer mto qto a ser miudim…mas gostei de saber do Zouk…essa parte é mto boa msm, mas as pessoas estão assim cada vez mais no obsoleto mundo virtual e pouco se cabendo no mundo real.

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    1. Lud! Você dança? Pois é, amigo, às vezes até nós também! Mas quanto perdemos de viver o aqui e agora com todos os nossos sentidos, inclusive o sexto, por não estar com a cabeça e o coração aonde os pés estão, não é?

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