Experiências do materno

Eu tinha a boa intenção de falar do feminino e de um de seus aspectos que fazemos memória juntos (comemoramos) neste mês de maio, a maternagem. Desde já peço desculpas, porque um texto não nasce assim, quando a gente quer que ele nasça e sobre o que a gente decide e planeja, ele simplesmente brota em momentos inesperados. Ainda mais sobre um tema tão entranhável, que se vela e desvela uterinamente, escapando de qualquer poder e controle. Graças à Grande Mãe, que nos abraça e aquece em seu redondo!

Só tenho a impressão de, nesta fase, em plenos 40, estar submersa no mar de aprendizagem do Reinado da Deusa, que escapa às melhores elaborações racionais, mas gera vida na vida. O cuidado diário de minha mãe idosa e enferma envolve de tal maneira que torna difícil saber ao certo quem é cuidadora e quem é cuidada. O verbo “ser”, e também O Ser, não dão conta, pois esse encontro com o Rosto escapa e leva além.

Já não tem forma – passou longe do fitness –, nem diálogo – pouquíssimas trocas de palavras escritas, na falta do ouvir e do falar – e sequer muita compreensão – quando a lucidez passa à esfera do mais ou menos. Iniciativa, quase autossuficiência, que já foram marcantes, cederam agora espaço a uma dependência total. Que fascínio então é esse que ela exerce mais do que nunca? Encanto, doçura, fortaleza na fragilidade… Sorriso e brilho nos olhos… tão dentro de si e tão no outro, nos outros… A gente procura palavras e até as torce para tentar dizer de uma experiência que ultrapassa e muito qualquer descrição.

Fico feliz com algumas vitórias alcançadas com muita luta feminista. Quando percebo mudanças nas tradicionalmente machistas propagandas de cerveja – em uma ou outra –, sei que não são gratuitas, mas vêm daquela história de água mole em pedra dura… Faz tempo que não vejo uma divulgação de leite ou iogurte com um corpo feminino ao lado, como que aproximando duas “coisas comestíveis”. Pequeníssimos avanços num terreno no qual ainda temos muuuuito a percorrer. Quando chegam perto duas datas normalmente complicadas no imaginário geral – o Dia Internacional das Mulheres e o Dia das Mães – a gente fica com medo do que vai receber por aí, diretamente ou sobretudo via mensagens prontas espalhadas pelas redes sociais (como as detesto!)

Alguns a gente questiona, outros – a maioria – tenta deixar pra lá, não vale a pena! Você não deve estar entendendo como vim parar aqui e eu menos ainda. No entanto, acredito que o feminino e, dentro dele, a maternagem são da ordem da experiência mais que da reflexão – e menos ainda dos estereótipos, que é o que mais irrita na mídia e nas mensagens prontas!

Que este mês nos ajude, então, a mergulhar no próprio mar e recolher algumas conchinhas e quem sabe uma pérola das manifestações da Grande Mãe, sejam elas quais forem. Afinal, a bondosa e a terrível fazem parte do mesmo pacote. E a Vida, como Mãe, por meio de contrações, realiza nossos partos quando somos encerrados ou nos encerramos no útero.

(Escrito em 04/05/2018, após ter dado banho na minha mãe)

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