Pra não dizer que não falei das flores… hospitalares

No último texto, expressei o desconcerto sobre a dificuldade de ficar tranquila com um parente internado no hospital, devido a constantes desatenções que geram incerteza quanto à sua recepção dos devidos cuidados de saúde. Para não deixar a questão apenas deste lado, senti necessidade de reconhecer as flores que brotam no matagal.

Há enfermeiros que brilham em sua vocação, deixando o humano ultrapassar o técnico, como deve ser. Apesar do aperto de uma equipe reduzida diante de tanta demanda, da rotina e de situações desagradáveis que ocorrem ao lidar com pessoas em seu estado de maior fragilidade, não agem de forma robotizada. Estabelecem relações sujeito-sujeito com os pacientes que, em suas mãos, podem se sentir clientes, porque são vistos, ouvidos e considerados assim.

Ressalto três em especial da última internação de minha mãe, que continua em seu placar de metade dos dias deste ano em casa e metade no hospital. Não mencionarei nomes para não correr o risco de esquecer alguém, uma vez que a gente também não fica no estado total de atenção para todos os lados, focado que está no ente querido.

Começo pela socorrista, que se destacou na calma com que atendeu, sem deixar de fazer o que era preciso. Essa paz de espírito permitiu com que fosse eficaz, articulando a obtenção da vaga e, com isso, evitando uma das etapas que antecede o prontoatendimento. Lembro-me de uma frase de Roberto Tranjan, com quem já aprendi tanto: “Vamos devagar porque estamos com pressa!” Além disso, na ambulância, ela me deu todas as dicas para a continuidade dos cuidados com minha mãe, enquanto ia sentada de frente e de mãos dadas com a dona Amelia.

Depois, uma enfermeira do andar que, com uma ou duas atenciosas perguntas, descobriu que eu era filha única e não morava na mesma cidade que a minha mãe, apesar de estar provisoriamente por aqui. Fez questão de expressar sua empatia e identificação, “ultrapassando” no bom sentido o distanciamento profissional. E um enfermeiro super brincalhão. Como é gostoso alguém chegar de um jeito leve e, sem deixar de fazer o necessário, rir e fazer rir!

O médico não chegou como um expert que sabe tudo já no primeiro contato – o que não deveria ser, mas muitas vezes ocorre. Pelo contrário, dialogou, pediu o nosso olhar e levou o ponto de vista em consideração, explicou tudo e deixou uma ponte de comunicação. E a receita tão detalhada e na língua dos vivos?! Nunca vi igual.

Agradeço de coração cada colaborador(a) que chegou com delicadeza para limpar, entregar a refeição, organizar os papeis ou mesmo ouvir. Dá-me a esperança de que, sendo ou não a maioria, deixam seu brilho a iluminar o caminho de quem por ele passar.

(Escrito em 23/04/2018, na alta da quinta internação do ano de minha mãe)

4 comentários em “Pra não dizer que não falei das flores… hospitalares”

  1. Fico maravilhada com a grandeza do coração de quem escreve…
    Apesar dos espinhos, contempla as flores,
    Apesar das dores, exala perfumes
    Que encantam até o êxtase da alma.

    Deus seja o teu consolador e companheiro de jornada.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s