O (des)cuidado com a saúde nos hospitais

Tenho acompanhado minha mãe de 85 anos em quatro internações neste ano, que totalizaram 45 dias no hospital e 52 em casa. Tantas experiências que supõem vários relatos… do que é possível relatar (pois algumas alcançam uma profundidade para a qual não há palavras). Neste, gostaria de compartilhar sobre a insegurança que tem nos provocado o atendimento à saúde.

Uma vez no hospital, a minha tendência seria relaxar; afinal, está em boas mãos, de médicos, enfermeiros e técnicos que entendem e saberão conduzir o tratamento da melhor forma possível. Lembro-me de ter relaxado quanto ao meu pai, há 11 anos. Só não sei agora se porque foi diferente ou por inocência.

Com a minha mãe é uma tensão constante, que na verdade começou bem antes, há uns poucos anos, quando, internada por pneumonia provocada por aspiração (engasgos que fazem o alimento ir para os pulmões), indicaram-lhe fazer gastrostomia, colocando uma sonda para alimentar-se diretamente no estômago. Achei aquilo tão invasivo que perguntei: “Mas não tem outro jeito?” Nem foi necessário insistir no questionamento, veio em seguida a resposta: “Sim, se vocês seguirem o que ensinarmos à risca!” Fiquei chocada: como assim indicarem algo tão drástico havendo outra solução?

Temos sido tão obedientes que prolongamos por 3 ou 4 anos seu prazer de comer. Aprendi a ficar atenta e questionar. Agora, no entanto, essas atitudes têm sido necessárias para os mínimos detalhes – qual medicamento estão dando, o horário, o tipo de banho, até corrente de ar. Quando ela ainda estava com dieta pastosa, chegou no CTI mais de uma vez um mingau, ralo demais para o que devia ser, e água pura, que lhe é fatal (desde o que contei precisa ser espessada até a consistência de mousse). O remédio para dormir é prescrito no horário padrão (20h), mesmo com a gente avisando que ela toma às 17h diariamente, do contrário não faz efeito na hora certa. Demora um pouco convencer alguns médicos disso, sobretudo quando são as cuidadoras que conversam com eles (preconceito?)

Não adianta muito, no entanto, a mudança da prescrição. Supõe várias idas ao posto de enfermagem implorando pelo remédio, que até hoje não atrasou menos que 1 hora, com insistência. Levantamos as mãos para o céu que este ainda é dado, porque outro remédio prescrito, necessário para evitar a aspiração da saliva (que causou a penúltima internação), deixou de ser dado no horário da manhã em alguns dias.

A fralda, desta vez, até que tem sido trocada regularmente, pois nem sempre foi. Já precisei implorar por esta troca, enfrentando resistência. A microaspiração acaba e somos nós que mexemos no aparelho para desligá-lo e retornar com o oxigênio nasal, pois demora mais de 1 hora para alguém voltar no quarto para olhar. No banho de manhã, o lençol é puxado de uma vez e a janela escancarada – nós é que precisamos dizer ao profissional de saúde da corrente de ar sobre o corpo quente de uma idosa.

O que dizer da cirurgia que, por um mal-entendido interno, por um tris não é adiada, prolongando o sofrimento?! O último episódio foi da morfina, tão forte e com vários efeitos colaterais, prescrita caso necessário, e que já seria ministrada se eu não tivesse negado e pedido para conferir.

Não sei se você continua aqui, após o que pode ter parecido uma ladainha de reclamações. Se sim, obrigada por acolher o desabafo de quem fica se perguntando: por que não posso esperar os devidos cuidados com a saúde em um hospital?

Essa pergunta gera outras, olhando além para a sociedade atual: por que não necessariamente a escola é lugar de educação, a polícia de segurança e a igreja de espiritualidade? O que acontece com nossas instituições?

(Escrito em 09/04/2018, durante a 4ª internação do ano de minha mãe)

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