Pra não dizer que ignorei o Dia Internacional da Mulher

Hoje, levantei me cobrando se não escreveria nada sobre o Dia Internacional da Mulher. Cobrar-se já é algo bem típico da mulher, apesar das duplas ou triplas jornadas de trabalho, apesar da perpetuada falta de igualdade na divisão das tarefas ou da responsabilidade pelos filhos, apesar da dureza do dia a dia não conciliar muitas vezes com o corpo perfeito ou a ausência de marcas de idade… acho que já comecei… ainda bem que outra característica da mulher é a inspiração entranhável, mesmo nos apertos (o que vem lá do fundo sai pela força da vida, uterinamente).

Pois bem, no meu caso, o apesar é: apesar de estar morando em duas cidades para acompanhar o mais de perto possível a minha mãe, em sua debilidade de saúde. A dona Amelia não podia deixar de ser citada aqui, pois ensinou-me tanto e com ela aprendo cada vez mais. Nunca gostou do seu nome, apesar de tão doce. Aliás, não era do nome que ela não gostava, mas da associação imediata que a maioria das pessoas fazia com a música, que de “mulher de verdade” ela nunca viu nada. Uma mulher dos anos 30 (a minha mãe, não a da música) muito à frente do seu tempo, com a mentalidade mais avançada do que muitas com as quais já topei no caminho e que poderiam pela idade ser suas filhas ou netas. Ela sempre viveu a dignidade feminina em sua maneira de pensar, falar, agir, trabalhar e se relacionar. E hoje transmite resiliência e alegria, mesmo toda roxa, inchada e ligada a sondas e mais sondas em seu leito de hospital.

Bom, mas como não estou fazendo uma homenagem à minha mãe, destaco uma frase da qual nunca me esqueci e que venho falando muito nesta semana – por que será, né? Uma vez, lá pelos meus dez anos de idade, estava eu em um dos papos cabeça que gostava de ter com a dona Amelia e, enquanto caminhávamos pelas ruas de BH, fazia quase um discurso sobre a igualdade entre homens e mulheres – dizia que, graças a Deus, os tempos já eram outros, as responsabilidades podiam ser divididas, etc. e tal. Minha mãe parou (parou mesmo de andar, acho que para eu me assustar e dar-lhe uma chance de falar!) e afirmou: “Minha filha, a cultura muda muito devagar!” Só me lembro de que fiquei bastante impressionada e incomodada, mas não sei se cheguei a entender naquele momento.

No entanto, ao longo dos anos sim – ô!!! –, sobretudo porque a frase fez-me observar mais a vida real. E aqui estamos, no dia 8 de março de 2018, com muitos motivos ainda para lutar, não sei se tanto quanto ou mais do que para celebrar e homenagear. Concordo com minha amiga Ana Cris Gontijo, cujos textos adoro: “Não me venham com homenagens fofinhas… hoje é dia de conscientização”.

Basta ver os dados da pesquisa super recente do IBGE, divulgada ontem, referente aos anos de 2015 e 2016: há mais mulheres que homens frequentando o ensino médio (10% a mais) e formadas em curso superior; elas trabalham em média 18 horas por semana em afazeres domésticos contra 10 horas dos homens (conheço alguns que sequer põem comida no próprio prato, em pleno século XXI!); ocupam 62% dos cargos gerenciais nas empresas, contra 38% deles; e recebem em média 23,5% a menos. Por que???

Outros dados alarmantes referem-se à violência contra a mulher. São inúmeros, mas apenas alguns para esta conversa: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 1 estupro a cada 11 minutos em 2015 no país, mas calcula-se que isso seja apenas 10% do total dos que realmente acontecem. Perdoem-me a interjeição: Caraca!!!!!! Em 2017, houve um aumento de 6,5% de homicídios dolosos contra mulheres, sendo quase 25% deles caracterizados como feminicídio (mortas em crimes de ódio motivados pela condição de gênero). No entanto, há uma subnotificação desses casos, ou seja, na verdade, o número é bem maior, e a maioria deles é motivado pela separação. Oi? Eu não tenho a liberdade de decidir se quero ou não ficar ou permanecer com você?

Podia falar de muitas outras coisas, mas primeiro que não sei se você chegaria ao fim deste que já virou um textão, e segundo que tudo isso me fez pensar também no micro, no que está em nossas mãos ou vivências diárias. Não podemos ignorar tanta injustiça e há que lutar por mudanças e justiça nas grandes instâncias, certamente! Mas partilho algumas perguntas que nasceram em mim para o cotidiano das minhas opções e relações:

– Como vejo a mim mesma como mulher? Gosto de mim ou ainda me prendo muito ao desejo de agradar e medo de desagradar?

– Valorizo-me por inteiro? Não estou dizendo ver-me como perfeita, sem nada para melhorar ou crescer. Mas reconheço e vivo a minha dignidade, no meu corpo, nas minhas ideias, na personalidade e na espiritualidade? Ou comparo o tempo todo o quão longe ou perto estou dos padrões estabelecidos não sei por quem?

– Como vejo as outras mulheres, conhecidas e desconhecidas? No fundo, no fundo, minha postura diante delas é de parceira, cúmplice, apoiadora ou de rival?

– Vivo como quem depende ou necessita de um homem para se completar, para ser feliz, com uma falta e carência gritantes o tempo todo; ou como um inteiro fervilhante, alguém que está ou procura estar bem consigo mesma, vive relações plenas com todas as pessoas e, assim, é cada vez mais livre para escolher estar ou não em um relacionamento amoroso? E, se está, sabe não se submeter, mas se colocar nele em posição de mutualidade?

Sei lá, algumas primeiras perguntas que me surgiram. Você pode ter pensado em várias outras e adoraria que compartilhasse comigo. Acho que minha mãe tem razão sim, a cultura muda muito devagar – dentro de nós também. Temos estrada, ein, amigas? Vamos juntas?

(Escrito em 08/03/2018, no caminho entre BH e SP)

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