O espaço da rel-ação

Deus se manifesta no espaço criatural. Nesse tempo ando fazendo memorial, prática constante do povo de YHWH. Lembrei hoje da primeira vez que Deus dirigiu-me uma palavra (ou que eu captei). Foi aos 19 anos, no espaço aberto por uma relação depois de uma ausência – prolongada ao meu sentir – que me fez pisar no freio da fantasia desenfreada. Estando num barco de mergulho, em pleno Abrolhos, com aquele céu de um aberto azul e o mar espelhado, uma voz questionou no mais fundo de mim: “Como posso estar sofrendo por tão pouco, se a vida é tão mais que isso?”

Hoje entendo que Deus se autocomunica a nós nesse espaço para o qual a experiência dá diferentes nomes, segundo a ocasião: vazio; limite; ausência; falta; desejo. Benditas sejam as circunstâncias em que na nossa criaturalidade e na do outro “damos com os burros n´água”, chocamo-nos contra o muro, caímos de cara no chão, se nessa experiência de finitude descobrimos nosso poço de desejo e nos abrimos Àquele que não o enche, mas que como hóspede querido o visita; e entregamos-Lhe o que só a Ele pertence: esse fundo sem-fundo de nós mesmos!

No trecho da travessia em que me encontro, tenho várias vezes a sensação de dejavou. Será que as coisas constante e opressoramente retornam e retornam? Mas exatamente no limite reside a possibilidade de recriação. Ela se dá no exílio, na saída de nós mesmos, desse estar “cheio de si” (e que vaidade encher-se de vento!), na retirada da fantasia onipotente, da idealização, na aceitação do espaço criatural – dentro e fora de nós.

É esse espaço que nos possibilita, no encontro com o outro/os outros, crescer e multiplicar-nos, cuidar do mundo, entregar-nos aí fora. Por isso nem o Senhor nesse espaço fica, mas entra e sai, nesse jorrar-se dinamicamente como Fonte dA Vida. Às vezes, por Ele, alguém pode passar por aí, entrar e sair com o Senhor; e nós também, passear no jardim deserto de alguém, sendo o máximo que criaturalmente se pode ser: guardião da solidão um do outro.

Se paralisa aí, se tenta eternizar a faísca, isso apenas nos prende na torre da Rapunzel, beleza guardada para o amor idealizado. Vento e mentira! Quem os quer? A partir da nossa diferença originária, soltemo-nos em rel-ação no sopro do Senhor, que renova – e por nós quer renovar – a face da Terra, assumindo com alegria nossa pertença radical Àquele que é A Fonte da Vida e do Amor.

(Escrito em novembro de 2008)

2 comentários em “O espaço da rel-ação”

  1. Tania querida, obrigada pela reflexão… me descobri querendo eternizar faíscas… mas o Senhor em Isaías 42,3 quando nos fala do pavio que ainda fumegar quer nos falar da esperança e misericórdia…
    Somos uma centelha diante de Deus!

    Curtido por 1 pessoa

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