O meu “pequeno imprevisto” – parte 1

Eu diria que você é completamente fora do quadrado, se pudesse usar o verbo “ser” para você. Mas não posso, pois já o estaria colocando dentro das garras de uma razão que me escapa.

A cultura ocidental de fato é (olha aí o verbo de novo) uma cultura metafísica. Que difícil pensar sem definir, ou enquadrar em definições, o que dá quase no mesmo!

Já tava difícil pensar sobre nós, agora mais ainda pensar sobre você. Mas também não dá para não pensar. Só que eu não tenho as categorias do pensamento. Será que a narração oriental me ajudaria? Será que a ética do Rosto de Levinás podia contribuir nesta hora? Ou mesmo os contos, que têm me ajudado a compreender-me a partir da mulher selvagem, ajudariam neste pensamento/ reflexão/ experiência?

Colocar palavras sem nexo num papel já se constitui num belo exercício. Eu e minhas intuições! Sempre gostei tanto da música “Pequeno imprevisto”, do Paralamas, sem saber porquê. E olha ela aí, socorrendo-me agora na re-flexão (Bota flexão nisso! Baita exercício de elasticidade! Cultural?):
“Eu quis querer o que o vento não leva

Pra que o vento só levasse o que eu não quero.

Eu quis amar o que o tempo não muda

Pra que quem eu amo não mudasse nunca.

Eu quis prever o futuro, consertar o passado, calculando os riscos, bem devagar ponderado.

Perfeitamente equilibrado.

Até que um dia qualquer,

Eu vi que alguma coisa mudara.

Trocaram os nomes das ruas,

E as pessoas tinham outras caras.

No céu havia nove luas

E eu nunca mais encontrei minha casa”.

 

Engraçado nisso tudo é que algo tem cheiro de casa pra mim. Apesar de todo esse mosaico, parece que o Vento que faz nascer de novo é que tá soprando; aquele “que sopra onde quer, que não se sabe de onde vem nem para onde vai”[1]. Pois é. Aquele.

Aquele dos exercícios de 30 dias pra me tirar da busca de ser “A”. Pra me levar pros bastidores, ser uma com os outros no meio da vida comum, inclusive metaforizada na mulher do promotor em Pirapora – haja resistência! Uma coisa ficou clara: “Em Lelivéldia ou em Tóquio, meu lugar é na casa do meu Pai.”[2]

Esta casa eu desejo, dela sinto saudades, por ela suspiro e direciono todas as minhas buscas, mesmo que “às apalpadelas”[3]; inquieto-me quando não a vejo ou não a vivo; seu cheiro aguça meu faro e o leve odor no ar impulsiona toda a minha caça. Por ela deixei tudo. E – engraçado – estou deixando tudo de novo, o tudo pelo qual eu deixei tudo. Não me havia dado conta. Mas, nessa terra de exílio em que nos encontramos, possivelmente isso será necessário tantas vezes! Certamente “seu amor vale mais do que a vida”[4].

[1] Jo 3,8.

[2] Lc 2,49.

[3] At 17,27.

[4] Sl 63,4.

(Escrito em 03/11/2014)

 

2 comentários em “O meu “pequeno imprevisto” – parte 1”

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