Não se aguenta mais!

Ela começou a chorar. Outra que não aguentava mais o seu trabalho. Parece que não aguentou, porque hoje já não estava lá. Por que o que seria para dignificar esfolia, arranca o couro do corpo e da alma?

Passei por ela no domingo de manhã. Aguardei pacientemente que me atendesse em um dos guichês da bilheteria da estação de metrô Lagoinha, em Belo Horizonte. Sim, aguardei, enquanto ela reclamava com nervosismo com alguém que parecia ser seu supervisor e a escutava de pé. Ela, sentada de costas para os clientes, de frente para a sua dor. O supervisor, sem graça, ouvia, mas sinalizava com a cabeça que alguém a esperava.

Voltou-se para mim, recebeu meu dinheiro, entregou o ticket e o troco e caiu no pranto. Levantou-se, chorando e dizendo não aguentar mais, e bateu a janelinha do guichê, já não nos permitindo vê-la. Hoje passei pela mesma estação, procurei por ela nos guichês, mas já não estava.

O que acontece para o trabalho virar um tormento a ponto de as pessoas não aguentarem mais? Creio que não é a maioria – acho que nem a metade – das insatisfeitas que têm a coragem de dar o “basta!” Coragem própria ou da última gota d´água que derrama o balde.

O que mais vejo é o presenteísmo – estar apenas de corpo presente no local do trabalho, mente e corações em outro lugar. Nos grupos de Whatsapp dos quais participo, são as mesmas quatro ou cinco pessoas que interagem o dia inteiro e não perdem absolutamente nada. Levam-me a pensar: “Será que elas estão no trabalho?” Por seus comentários, vejo que sim. E minha reflexão continua: “Como elas estão no trabalho? Que trabalho é este em que se está e não se está?”

Não jogo a responsabilidade apenas para os empregadores, sejam eles do setor público, privado ou do Terceiro Setor. Vejo que em grande parte – quem sabe até a maior parte – são responsáveis sim! Negócios sem propósito não despertam paixão. Ambientes sem diálogo não permitem a participação e, logo, o engajamento, fruto dela. Não se cria relação de verdade com gente que não é sequer vista como gente, esteja ela no papel de cliente ou de colaborador. E como buscamos relações de verdade, fugiremos, real ou virtualmente.

Mas cada um é em primeiro lugar responsável por si mesmo. A moça tomou a vida nas mãos. Talvez com atraso, daí a explosão; mas reagiu, deu seu “basta”. Quem arrasta uma situação por falta de fé ou esperança de poder mudá-la é responsável pela própria dor, ainda que não seja o único responsável.

Somos chamados a viver a habilidade responsorial, a ouvir e assumir a voz de dentro que clama por mais vida. Só assim aprenderemos a dar uma resposta hábil ao rosto do outro. Não consegui dá-la à menina do guichê. Não fui rápida o suficiente. Quando ia perguntar-lhe se podia fazer algo, as portas já estavam cerradas.

Que, unida à sua dor, eu possa viver o meu trabalho por inteiro e com sentido (“florescer onde meus pés estão plantados”, como refletiu o meu amigo Gilson) e ajudar outras pessoas a ouvir a voz de dentro com relação aos seus.

E você, qual o seu basta de hoje? Em que se manifesta a sua busca por vida plena neste dia?

(03/10/2017, após episódio no metrô Lagoinha, em BH)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s