Mulher, resistência na opressão

Por que tanta opressão contra a mulher?

Por que das próprias mulheres ouvimos insinuações de supostas culpas, imputabilidade reversa, de vítima a culpada por uma provocação ao olhar julgador da outra?

Estivesse porventura a moça do trem paquerando provocativamente, ou até vulgarmente, isso inverte a responsabilidade se ocorrer uma violência?

Violência não é violência e pronto?

E vai ver que a outra nem se deu conta do olhar guloso e da língua vulgar daquele que acompanhava cada um dos seus gestos ao virar-se – segundo as observadoras, sensualmente – no trem.

Daí à feminilidade brasileira ir para o banco dos réus é um triz.

Por que?

Por que uma menina-mulher que aos 20 anos chegava à sua segunda filha de dois pais precisou sofrer, além do abandono do amor, a condenação da sociedade, que até aborto lhe propôs? Matar um bebezinho é mais bem visto do que deixá-lo nascer, evidenciando o ato pelo qual foi gerado.

Um ato sexual, e daí?

E daí que a afasta definitivamente do ideal – impossível, vale ressaltar – da virgem e mãe, redimido minimamente com um marido. O que não era o caso.

Por que? Por que um qualquer, por mais brutamontes e cafajeste que possa ser, ainda assim redime a mulher de ser mulher aos olhos sociais? E se um príncipe ele fosse, seria mesmo encantado? Ou o encanto está na própria mulher, temido, abafado, idealizado e poetizado, mas raramente aceito e reconhecido?

Voltando à menina-mulher, guerreira assumindo suas filhas, sozinha, e ainda sob maldições – vai ser como você, passar pelo mesmo. Maldição que se torna bênção – também será guerreira, resistente, trabalhadora, amante (aquela que ama profundamente). Menina-mulher que trabalha de sol a sol e, ao começar a colher os frutos de suave empenho e construir, também com suor, sua pequena casinha, ainda tem que ouvir – “Deve ter algum homem por trás disso”.

Nem por trás nem pela frente, que eles tantas vezes quando chegam o fazem destruindo, pisando, congelando.

Por que a solidariedade feminina, quando acontece – pois, temerosos da imensa força, incentivam-nas a partirem umas contra as outras – tem que ser tão maltratada? Indiferença, frieza, duras palavras, quando simplesmente se oferece um passo da omissão à revelação pelo bem das mulheres.

Temos mesmo que esperar acolhida e compreensão? Ou é entre nós e por nós que precisamos vivenciar tão divinos dons que nos fazem mais humanas, mais mulheres?

Não sendo virgens e mães, nos tratarão como putas, à mínima manifestação da nossa sexualidade, seja em seu vir à tona na fragilidade de uma doença. Não tem problema, amemos as putas. E, virgens ou putas – ou a mais verdadeira realidade, ambas – respeitemo-nos como selvagens de uma sabedoria ancestral, e uma fortaleza delicada que carrega o mundo.

(23/07/2016, após um dia de conversas femininas e choque com um iceberg masculino)

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