Desejo em ação

Ontem fui pela primeira vez à Sala São Paulo. Não quero falar da correria para chegar, da procura de alguém na fila para dar o ingresso que sobrava (pois já fiquei nessa fila sem conseguir), nem da entrada meio atrasada que nos fez ficar 20 minutos ouvindo do lado de fora do teatro até que acabasse a primeira música. Também não vou ficar falando aqui da mais que conhecida beleza do espaço arquitetônico. De fato lindíssimo, merece pelo menos numa frase ressaltar a emoção de estar ali. Passagem para um outro mundo!

Hoje quero – e preciso – comentar sobre o regente João Carlos Martins. Apesar de famoso internacionalmente, eu não o conhecia. Meu primeiro contato com ele foi ali, quando de forma simpática nos disse: “Esse concerto seria cancelado. Eu saí do hospital às 5h da manhã (e nos mostrou a pulseira ainda em seu braço). Mas resolvi fazer.” Contou-nos também de suas 23 cirurgias, e que na 19ª foi proibido de exercer o ofício, mas persistiu. “A música é minha vida”, disse-nos, com gestos ainda mais contundentes que suas palavras. Com o testemunho de estar alegremente presente.

Vi o dom em ação, o que me encantou. O piano tocava-me abissalmente (na fundura mais funda de mim). A regência tirava de cada músico o melhor, e a atitude colocava de pé aquele que por si mesmo não se erguia. Que capacidade de ir do clássico ao popular, de Beethoven a Adoniran Barbosa! Não houve como não pedir “bis”, e o público só não pediu mais por respeito à alta recém-recebida.

Meu “bis”, no entanto, mais que à execução magistral, foi ao testemunho. Nesse homem vi o desejo em ação, o que me impressionou. Alguém que não parou na primeira dificuldade – sequer na 23ª. Alguém que aos 76 anos exalava jovialidade. Os saltos que dava, a firmeza nos movimentos dos braços e os enormes sorrisos não condiziam com nenhum boletim médico. Executou um samba enredo feito em sua homenagem – isso mesmo, a orquestra tocando música de escola de samba – e finalizou com o Trem das onze, chamando-nos a cantar. Que abertura! Aberto às culturas e aberto a nós ali, alguns dos quais certamente frequentadores assíduos, outros tão iniciantes como eu.

Fico pensando que a gente pronuncia a palavra “desejo” em vão muitas vezes. Essas borboletinhas no estômago que sentimos em sua maioria vêm mais da carência que do desejo. São como um gás (será por isso que se chama alguns treinamentos de “dar um gás na moçada”?). Quando enche a bexiga parece que vai explodir. Se não explode, murcha. Tudo rápido, ainda que intenso por instantes. O desejo verdadeiro permanece, e faz o dom ser oferecido, para além de qualquer obstáculo que apareça no caminho. Lembro-me do Roberto (Tranjan) contando sobre Howard Schultz, que recebeu centenas de “nãos” quando procurava realizar o seu sonho de comprar a então pequena Starbucks, até finalmente encontrar um investidor. Em qual número dessa centena eu paro?

Obrigada, maestro João Carlos Martins, por acender em mim o desejo de desejar assim. Desejo realizar meu dom! Que seu testemunho me (nos) ajude a não parar!

(Escrito em 08/05/2017, após concerto na Sala São Paulo)

2 comentários em “Desejo em ação”

  1. que alegria Tania, já tinha escuta a entrevista deste Maestro, exalando vida com cada pergunta respondida no Roda Viva da Tv cultura, e esse seu convite a desejar de verdade e não parar nos motiva.Abs

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