Este é o valor do meu trabalho?

Na semana passada deparei-me com uma situação que muito tem me escandalizado. Inscrevi-me num site de freelancers, preenchi meu perfil com bastante cuidado, li as normas, assisti aos vídeos tutoriais, refleti sobre o valor da minha hora de trabalho – “O correto seria em torno de R$ 40, mas no início vou cobrar R$ 30”. E comecei a ver os projetos publicados pelos clientes, para dialogar com eles e enviar propostas.

Num destes diálogos, o cliente informou-me que necessitava de um aprofundamento sobre o tema, pois o público leitor era conhecedor do assunto. Com sinceridade, falei-lhe da minha experiência, para verificar se seria suficiente. Ele propôs então que eu escrevesse um texto como teste, para o qual pagaria R$ 5. Levei um susto com a audácia do valor, mas pensei: “Como é um teste, vou fazer, considerando como aqueles testes quando procuramos emprego”. O aplicativo não aceitava um valor tão baixo, então precisamos combinar R$ 20 pelos dois textos, o que, descontando as taxas do site, dava um líquido de R$ 17 para mim.

Ao construir meu esquema de trabalho, que contava com pesquisa, entrevista, esqueleto do texto, redação, revisão, verificação do cliente e correções, percebi que se tratavam de mais horas de trabalho até do que eu imaginava, dado o nível de aprofundamento que o briefing pedia. De fato, foram 10 horas de trabalho no total. Ou seja, R$ 1,70 a hora!

Minha indignação foi crescendo, mas não apenas com este caso, uma vez que até certo ponto eu havia me disposto, mas com o que comecei a ver no geral das ofertas. R$ 5 o texto é um valor comum, e muitos têm a ousadia de deixá-lo claro ao publicar seus projetos! Quanta desvalorização profissional! Este valor não pagaria sequer uma pesquisa na Internet do tipo “copiar e colar”, quanto mais o que se exige, mesmo se oferecendo quantia tão irrisória: autenticidade, técnicas de marketing digital, correção, criatividade. Conhecimentos e dons que não têm um valor somente monetário, mas que consiste num absurdo, disparate, injúria oferecer quantia irrisória por um trabalho no qual eles brilham. Meu namorado utilizou uma palavra mais apropriada: prostituição.

O sábio Aurélio ensina que prostituir não se refere apenas a atos sexuais. Uma de suas definições consiste em “perder ou tirar a dignidade”. Tem razão então! Aplica-se perfeitamente a esse tipo de oferta. Agora entendo na pele o que já ouvi tantas vezes: “O mercado de trabalho está prostituído”.

Precisa ser assim?

Há quem compre porque há quem venda. E se há! Perdi várias ofertas por atribuir às minhas propostas valores baixos, mas não indignos. Muitos escrevem por R$ 5. Como fazem para ganhar algo com isso eu não sei, mas aceitam.

Precisa mesmo ser assim?

Da minha parte sinto o chamado de não calar a indignação, mas deixá-la aflorar como energia para desvendar caminhos. E, se eles não existirem, abrir picadas, com aqueles mesmos dons ditos acima, da autenticidade, da técnica e da criatividade. Viver no desejo e no propósito, e não na carência e na prostituição. Que assim seja!

(26/01/2017, após 10 dias num site de freelancers)

4 comentários em “Este é o valor do meu trabalho?”

  1. Tânia, amei o post… muito bacana! É exatamente isso, o trabalho cada vez mais desvalorizado, e infelizmente essa é uma tendência muito forte em nosso país.

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  2. Tan! Dureza essa realidade. Mas sinto que tem o contrário… desvalorizarmos nosso trabalho e nos permitirmos a prostituição. Há de valorizar-se, de antemão, para obter valorização. Sigamos enfrentando os desafios, querida.

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