A gota de orvalho na folha de couve – OU – Do amor… institucionalizado ou não

Tenho observado as relações. A gente tem uma necessidade de segurança, que a instituição parece de alguma forma trazer. Dizer “este é meu namorado” é mais estável do que dizer: “Este é… hum… é…. pois…” Porque quem busca viver intensamente e inteiramente uma relação não tem “peguete”, “ficante”, “tico-tico-no-fubá”… essas palavras agridem, porque são tão pouca coisa pra dizer do que se sente e se vive com todo o ser! “Amizade colorida”: um pouco melhor, porque a primeira palavra é preciosa, fala de algo profundo com alguém – “quem encontrou um amigo encontrou um tesouro”. Mas não deixa de remeter à instabilidade de uma relação amorosa vivida assim. Não deixa de remeter à negação da institucionalização, já dita e combinada.

Onde se alicerça esta relação, se não no seu adjetivo: “amorosa”? Mas, onde se alicerçam de fato as relações que perduram se não no amor? Não é ele o eixo, a consistência, o conteúdo e a forma dos relacionamentos? Filia, eros e ágape: quanto mais tiver dos 3 – sobretudo quanto mais crescer no ágape, sem deixar de cultivar a filia e cuidar do eros, tanto mais firmeza ganhará, enraizando-se nO Amor.

Voltando à instituição: do namoro passa-se ao noivado; daí ao casamento; os filhos; as bodas… Tudo isso parece dar firmeza ao casal e à sociedade, ao olhar de fora sobre aquele casal. Mas não acabamos de dizer que a consistência está no amor? Qual o lugar da instituição no amor? Qual o lugar do amor na instituição? Quantos casamentos de longos anos perderam – já há muitos – a sua essência! Serão progressivamente mais raros, pois cada vez menos eles se mantêm!

No entanto, a segurança também parece ser uma necessidade do coração humano. A busca das instituições expressa este desejo. Como é difícil amar alguém e não saber se esta pessoa amanhã irá embora! A ausência de instituições torna muito mais fácil esta ida. Ida por qualquer coisa – por alguém atraente que passou (atração passageira, e que a instituição talvez gerasse a opção de deixar passar); por acordar de pá virada; por uma dúvida que pintou (e quantas dúvidas pintam numa relação!); por medos – ah, os medos e os fantasmas, inúmeros! Atrapalham a mais maravilhosa das experiências!

Rubem Alves questiona o jugo dos laços con-jugais. Para ele, o amor é muito mais a gota de orvalho na folha de couve do que o “eterno” diamante. E tem razão. Pode durar 70 anos, mas a cada dia é esta gota, gerando encanto a quem tem olhos de ver, beleza, fragilidade também, necessitando ser contemplado e cuidado com o espanto de quem se sabe incapaz de cuidar de algo tão sublime, tão grande e tão frágil, tão humano e tão de outra ordem. Vendo-o assim, só alicerçando a si mesmo e a relação nO Amor, o único que é Rocha e que não passa. Nós somos erva, somos a flor da manhã, mas “o seu amor é para sempre”.

Qualquer amor, institucionalizado ou não, só pode encontrar sua fonte, sustento, alicerce e firmeza nO Amor. É a promessa de amor que só é possível ser feita se renovada a cada dia.

Quanto a mim, que caminho tão novo experiencio! Eu, que outrora queria casar, vejo-me vivendo uma amizade colorida que acordadamente não será mais que isso. Grande, bonita, também abrigando o desejo do “para sempre”, de uma amizade que perdura independente da cor. Crescente a cada dia, já começo a chamá-la de amor, mesmo timidamente e às vezes assustadamente. Já me admito apaixonada. Vivo entre o segurar o coração, prudência que se deve à fragilidade do acordo, e o entregar-me no aqui e agora com todo o meu ser.

Há tanta delicadeza, tanto carinho, tanto gosto por estar junto, tanto companheirismo, tanta cumplicidade, tanto prazer, tanto amor que nunca admitirei que seja reduzido a algo fútil, egoísta ou superficial. Não é esta a minha experiência, não me identifico aí.

Aqui estou, vivendo o amor como a gota de orvalho na folha de couve. Desejo que este aprendizado possa também ser pão para os que seguem as trilhas institucionalizadas, mas desejam que seu “sim” seja novo a cada dia, e não cristalizado.

(Escrito em 21/12/2014)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s